vamos falar do que está acontecendo, parte 2

Eu não vou começar este texto dizendo que há algo de estranho no ar, porque seria uma constatação um pouco óbvia demais.

Desde que escrevi o outro texto sobre o que está acontecendo, muito mais aconteceu. E, se antes eu tinha algumas dúvidas, alguns sentimentos difíceis de explicar, agora as dúvidas só aumentaram, e os sentimentos ficaram ainda mais confusos.

Ontem teve muito mais gente na rua do que qualquer outro dia de manifestação. Mas até que ponto eu me senti representada por aquela gente?

Eu não me senti representada.

Eu não consigo me sentir representada por uma massa que está indo às ruas reprimindo bandeiras partidárias que estão na rua há muito mais tempo do que nós. Não consigo me sentir representada por uma gente que grita palavras de ordem vazias, sem saber direito as consequências do que faz. Não me sinto representada por uma gente que quer invadir a Prefeitura do Rio, ou o Palácio do Itamaraty em Brasília.

Aliás, aqui cabe um ponto muito pessoal: as cenas da “quase invasão” ao Itamaraty, com gente em cima do Meteoro, nadando no espelho d’água, quebrando vidros e colocando fogo no prédio, me causou sentimentos e sensações que eu não consigo explicar. Parece que estavam invadido a minha casa (que, espero, assim será, um dia – de preferência num futuro próximo). Parece que estavam destruindo um pedaço de mim. Eu senti uma coisa horrível dentro de mim – do mesmo jeito que me sinto quando algo de ruim está pra acontecer.

Enquanto isso, tem gente pedindo nulidade das eleições. Outros  pedem o impeachment da Presidenta. O Congresso está preparado pra substituir a Presidência com novas eleições rapidamente.

De alguma forma muito hábil, uma massa foi convencida de que o mensalão foi o maior escândalo político da história. De alguma forma muito hábil, uma massa foi convencida de que a culpa é do PT, única e irrestritamente. De alguma forma muito hábil, querem fazer a massa acreditar que todas as movimentações são apartidárias.

Mas como uma manifestação política pode ser apartidária? Como podemos achar natural que em uma manifestação política os partidos políticos não podem se expressar? Como aceitar uma manifestação popular que não é verdadeiramente uma festa da democracia?

Querem o monopólio do grito? Querem o totalitarismo? Querem o Estado de Sítio?

De repente, as manifestações, que sempre foram coisas de “socialista”, da “esquerda”,  se tornaram palco para discursos conservadores e reacionários. De repente, as manifestações se tornaram ações nacionalistas – no pior sentido da coisa.

De repente, os meios de comunicação passaram a exaltar o caráter pacífico e apartidário das manifestações.

De repente, não me dá mais orgulho em ver a massa mobilizada. Ao contrário, me dá vontade de gritar aos quatro cantos que parem de ir às ruas. E, de novo, quando muito se grita, fica difícil de escutar o que as vozes pedem. Se o movimento é tão grande e com tantas causas defendidas, na prática não conseguimos identificar suas verdadeiras causas. É aquela falta de ideologia que eu já tinha sinalizado no outro post.

Enquanto não vemos nenhuma reivindicação concreta nos gritos da população, o consenso só existe na entoação do Hino Nacional, na agressão moral aos políticos, e na convocação de mais pessoas pra rua. Ou seja: há ufanismo, prega-se o ódio, e o movimento é retroalimentado. Os nacionalistas que se unem sob a desculpa da independência de partidos ou vínculos políticos podem deixar escorrer pelas suas próprias mãos a democracia, a lei e a ordem pela qual tantos lutaram há pouco mais de duas décadas.

Pode ser só o início, mas eu estou começando a ficar com medo do final.

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