Arquivo do mês: agosto 2012

due anni senza lei

Mais um ano se passou sem você aqui, Mivó. Mais 365 dias sem você por perto. Eu confesso que ainda não me acostumei com a sua ausência física. A sua presença sempre foi tão forte que eu simplesmente não consigo ignorar pequenas ou grandes coisas que me fazem sentir como se você estivesse por perto.

Nesse segundo ano sem você, eu tenho tentado seguir em frente. Passei no mestrado, e estou lá no PPGEST, dando o máximo de mim no que eu acredito e no que me faz feliz. Fui à Orlando mais uma vez, mas só mais uma vez, porque percebi que precisava me dedicar ainda mais aos meus estudos. Bolsista sofre, vó. No Carnaval, fui pra Marquês de Sapucaí em quatro noites diferentes, usando, em duas delas, bustiês que você fez pra que você e a mamãe usassem lá, naqueles carnavais antes de eu nascer, em que vocês iam se divertir na Avenida. Me emocionei, chorei, sorri, cantei, e entendi o porquê de você ter sempre sido tão apaixonada pelo Carnaval, e não tanto por uma escola específica. Lembra que sempre dizíamos que, quando eu fosse maiorzinha e aguentasse ficar acordada a noite inteira, nós iríamos juntas assistir aos desfiles ao vivo? Eu pude sentir você lá comigo. E, lá, acabou que comecei a história do meu romance, do meu amor. Você ia gostar do Felipe, Mivó. Ele é bem daquele jeitinho que você sempre quis que eu encontrasse – e, ainda por cima, me estragou, e me estraga, quase do jeito que você costumava fazer. Mesmo em continentes diferentes na maior parte do tempo, é um mimo só. Tem horas até que eu acho que você, feito um anjo, mandou ele pra minha vida, pra me ajudar a passar por essas coisas difíceis da vida que insistem em se repetir.

Nesse segundo ano sem você, vó, eu realizei o meu sonho de ir pra Londres. Troquei as férias de julho na Disney por um mês de estudos em Londres. Foi difícil, mas foi muito bom. Eu acho que, se você estivesse aqui, do jeito que você era, você ia entrar num avião logo na primeira semana pra ir lá me resgatar do meu cupboard quartinho minúsculo, e ia ficar num hotel bacana comigo até que as minhas aulas acabassem. Do jeito que você sempre foi, Mivó, você teria ido pra Londres comigo, não teria deixado eu passar por metade dos perrengues que eu passei, e, de quebra, ainda teria conhecido o Felipe antes de todo mundo. Era engraçado quando eu ia, por exemplo, fazer compras, Mivó, porque eu sempre que via alguma coisa que me lembrava das coisas que você gostava, eu tinha vontade de comprar, como se você ainda estivesse aqui pra, na volta, curtir todas as minhas comprinhas e me abraçar forte. Aliás, uma das bolsas que eu de fato comprei, a mamãe disse que é a sua cara. E eu também acho. Estamos usando, nós duas – mas bem que podíamos usar nos três.

Passa um dia, passa outro, vem um dia depois do outro, e eu não consigo não sentir a sua falta. Todas as coisas, por menores que sejam, me fazem lembrar de você, e da alegria que era ter você por perto. Você me ensinou tanto, Mivó… você me fez compreender o que é, de fato, amar sem medidas, e amar incondicionalmente.

Hoje, eu não consegui me concentrar pra estudar. Resolvi que, só por hoje, eu ia me permitir sentir a dor da saudade por inteiro. Visitei tio Roberto e tia Ercy, e falamos da saudade, falamos do quanto o Padrinho, o tio Tarcísio, a tia Sílvia Helena, a tia Hellé-Nice e o tio Carlinhos nos fazem falta. Falamos do quanto você nos faz falta. Falamos do quanto você me faz falta. De tarde, fui com a mamãe ao cinema. Você acredita que agora eu consigo levar a mamãe pro cinema, vó? Ela tá começando a, finalmente, gostar dos filmes, o que é bom pra ela, e muito bom pra mim. O papai também sente sua falta… mesmo tentando se fazer de durão, eu já peguei ele com os olhos marejados quando falamos de você. Em uma das vezes que falei do quão incompreensível pra mim foi perder minhas duas avós em menos de um ano, ele até chorou um pouquinho. Ninguém aguenta tanta saudade, Mivó.

A sua presença será pra sempre forte na minha vida. Não há um só dia em que eu não sinta muita saudade de você. Não há nada que possa preencher esse vazio que se instalou no meu peito há dois anos atrás.

Não há nada que eu possa dizer que consiga expressar o que eu sinto.

Então, eu silencio, e busco, no silêncio mais profundo, a voz de Deus.