o dito pelo não dito, e o que ficou por dizer

eu não consigo descrever a alegria de estar em casa! comer comida fresca e quentinha, tomar café da manhã sentada, tomar banho no meu banheiro e dormir na minha cama. tantas coisas simples, coisas simples que nem damos tanta importância no dia a dia, mas que são fundamentais para aproveitarmos o melhor da vida.

desde que cheguei, estou às voltas com os meus trabalhos de final de semestre do mestrado. eu preciso de férias das férias, e não sei quando vou tê-las. mas, mesmo em meio aos trabalhos e muitas responsabilidades, refleti um pouco sobre o que faltou dizer sobre a minha experiência de vida em Londres, e no Reino Unido.

Londres é uma cidade do mundo. eu sempre sonhei em ir a Londres, e a realização do sonho acabou rompendo com muitos paradigmas. a cidade não é muito limpa, e os britânicos, na sua maioria, tem dentes muito feios. a prestação de serviços não é nada boa, e eu costumava dar gorjeta mais por educação do que porque tinha sido realmente bem servida. o serviço de metrô é, de fato, muito eficaz, mas nem mesmo lá não se escapa da confusão das horas de rush. a segurança é um outro problema: eu não conseguia me sentir segura em momento algum, estava sempre apreensiva, sempre pensando que qualquer pessoa perto de mim poderia ser um pickpocket. eu nunca senti essa insegurança toda no Brasil. lógico que aqui os índices de criminalidade são altos, mas os relatos que li antes de ir pra Londres, e o que eu via ou sabia que acontecendo enquanto estava lá me deixava em estado de alerta constante. aliás, alerta era uma palavra que não saía do meu vocabulário: alarmes de incêndio que tocavam e me deixavam surda, trânsito esquisito, e tantas outras coisas. pra não dizer que nunca me sentia em segurança, eu poderia dizer que, enquanto estava em aula na King’s, ficava mais tranquila – mas a tranquilidade passou a ser mais inquieta depois do acidente na cozinha que acabou acionando o alarme de incêndio e fazendo com que todos saíssemos do prédio.

e as pessoas. é lógico que eu sempre soube que o povo brasileiro é um dos mais calorosos do mundo, e que não se deve esperar o mesmo comportamento em outros lugares do mundo, mas eu fiquei surpresa com a frieza dos europeus em geral. eu não consigo entender como uma pessoa consegue ver a outra triste, ou até chorando, e não faz nada, não oferece um abraço, ou um sorriso sequer. a dificuldade deles em expressar as suas emoções me incomodou muito. talvez eu que esteja errada, talvez eu seja transparente demais, honesta demais. em Londres, todos tem um propósito, e parece ser sempre cada um por si.

eu não consegui verdadeiramente “turistar” em Londres, e eu tenho certeza de que isso foi em parte influenciado pela rotina gelada que todo mundo com quem eu convivia vivia por lá, pela rotina gelada que todos vivem por lá.

confesso que fiquei um pouco (ou seja: bastante) deprimida enquanto estava lá, naquele quarto minúsculo, vivendo aquela rotina gelada (e, quando eu digo rotina gelada, é em tantos sentidos, já que em pleno verão era preciso usar scarfs e trench coat, e o sol mal brilhava). foi bom? foi. mas, toda vez que eu tinha que me fechar naquela solidão do cupboard, eu me sentia uma formiga prestes a ser esmagada.

uma vez eu ouvi que if you don’t own the city, the city is gonna eat you. e isso é verdade. num dia em que eu esqueci disso, e saí meio desarmada, eu sentia como se eu estivesse sendo sugada por aquela cidade tão majestosa, cheia de construções tão antigas e bonitas, e outras mais novas e nem sempre tão bonitas assim; parecia que até andar era uma coisa difícil. foi aí que eu percebi que tinha que crescer e sair mesmo do meu casulo: eu tinha que dominar a cidade antes que ela me engolisse, antes que todas as coisas boas que eu podia aproveitar acabassem sendo afetadas por essa dificuldade em lidar com uma realidade tão diferente da minha. a primeira coisa que eu fiz com essa motivação “revolucionária” foi comer enquanto cruzava a Waterloo Bridge, enquanto olhares curiosos me julgavam.

seja aqui, ali, ou em qualquer lugar, você não pode deixar de ser você mesmo. e eu sei muito bem quem eu sou, e é por isso que, sozinha em Londres, eu me sentia uma formiga prestes a ser esmagada: para sobreviver lá, eu tenho que ter alguém por perto que me entenda, que me abrace quando eu quiser chorar, e que aceite as minhas maluquices. acho que isso potencializou a minha alegria no final de semana em que eu visitei o WB Studio Tour e o chaveirinho foi pra lá: enquanto estava sozinha no Studio Tour, eu podia ser a criança que eu sou quem eu sou sem ninguém me julgar, num ambiente que me fazia me sentir em casa; e, quando o Felipe chegou lá, no dia seguinte, eu tinha do meu lado uma das pessoas que eu mais amo na vida, e que me entende do começo ao fim, e que me aceita exatamente do jeito que eu sou, e que me encoraja a seguir em frente, a perseguir os meus sonhos, e a usar meu vestido com meu All Star.

eu não sei nem se o que eu estou escrevendo está fazendo algum sentido – a eterna sina de tentar organizar meus pensamentos em linhas quase uniformes – e eu tenho absoluta certeza de que eu nunca vou de fato conseguir explicar todas as emoções e todo o crescimento que me foi imposto por conta dessa viagem, mas eu precisava dizer algumas coisas que ainda não tinham sido ditas por aqui, pra lembrar sempre delas, e também das coisas que ficarão sempre por dizer.

já coloquei as varinhas do Fred e do George na parede, que ficou completa; já preguei meu novo poster Keep Calm and Carry On no meu quarto, pra não esquecer nunca da importância de manter a calma e seguir em frente. mas a verdade é que foi exatamente em Londres, no seu berço, que esse lema fez mais sentido na minha vida.

e a gente segue em frente.

eu sigo em frente tendo um ataque de ansiedade de cada vez. eu sigo em frente dizendo o que quero dizer, sendo quem sou e quem eu quero e gosto de ser. eu sigo em frente.

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