Arquivo do mês: julho 2012

o dito pelo não dito, e o que ficou por dizer

eu não consigo descrever a alegria de estar em casa! comer comida fresca e quentinha, tomar café da manhã sentada, tomar banho no meu banheiro e dormir na minha cama. tantas coisas simples, coisas simples que nem damos tanta importância no dia a dia, mas que são fundamentais para aproveitarmos o melhor da vida.

desde que cheguei, estou às voltas com os meus trabalhos de final de semestre do mestrado. eu preciso de férias das férias, e não sei quando vou tê-las. mas, mesmo em meio aos trabalhos e muitas responsabilidades, refleti um pouco sobre o que faltou dizer sobre a minha experiência de vida em Londres, e no Reino Unido.

Londres é uma cidade do mundo. eu sempre sonhei em ir a Londres, e a realização do sonho acabou rompendo com muitos paradigmas. a cidade não é muito limpa, e os britânicos, na sua maioria, tem dentes muito feios. a prestação de serviços não é nada boa, e eu costumava dar gorjeta mais por educação do que porque tinha sido realmente bem servida. o serviço de metrô é, de fato, muito eficaz, mas nem mesmo lá não se escapa da confusão das horas de rush. a segurança é um outro problema: eu não conseguia me sentir segura em momento algum, estava sempre apreensiva, sempre pensando que qualquer pessoa perto de mim poderia ser um pickpocket. eu nunca senti essa insegurança toda no Brasil. lógico que aqui os índices de criminalidade são altos, mas os relatos que li antes de ir pra Londres, e o que eu via ou sabia que acontecendo enquanto estava lá me deixava em estado de alerta constante. aliás, alerta era uma palavra que não saía do meu vocabulário: alarmes de incêndio que tocavam e me deixavam surda, trânsito esquisito, e tantas outras coisas. pra não dizer que nunca me sentia em segurança, eu poderia dizer que, enquanto estava em aula na King’s, ficava mais tranquila – mas a tranquilidade passou a ser mais inquieta depois do acidente na cozinha que acabou acionando o alarme de incêndio e fazendo com que todos saíssemos do prédio.

e as pessoas. é lógico que eu sempre soube que o povo brasileiro é um dos mais calorosos do mundo, e que não se deve esperar o mesmo comportamento em outros lugares do mundo, mas eu fiquei surpresa com a frieza dos europeus em geral. eu não consigo entender como uma pessoa consegue ver a outra triste, ou até chorando, e não faz nada, não oferece um abraço, ou um sorriso sequer. a dificuldade deles em expressar as suas emoções me incomodou muito. talvez eu que esteja errada, talvez eu seja transparente demais, honesta demais. em Londres, todos tem um propósito, e parece ser sempre cada um por si.

eu não consegui verdadeiramente “turistar” em Londres, e eu tenho certeza de que isso foi em parte influenciado pela rotina gelada que todo mundo com quem eu convivia vivia por lá, pela rotina gelada que todos vivem por lá.

confesso que fiquei um pouco (ou seja: bastante) deprimida enquanto estava lá, naquele quarto minúsculo, vivendo aquela rotina gelada (e, quando eu digo rotina gelada, é em tantos sentidos, já que em pleno verão era preciso usar scarfs e trench coat, e o sol mal brilhava). foi bom? foi. mas, toda vez que eu tinha que me fechar naquela solidão do cupboard, eu me sentia uma formiga prestes a ser esmagada.

uma vez eu ouvi que if you don’t own the city, the city is gonna eat you. e isso é verdade. num dia em que eu esqueci disso, e saí meio desarmada, eu sentia como se eu estivesse sendo sugada por aquela cidade tão majestosa, cheia de construções tão antigas e bonitas, e outras mais novas e nem sempre tão bonitas assim; parecia que até andar era uma coisa difícil. foi aí que eu percebi que tinha que crescer e sair mesmo do meu casulo: eu tinha que dominar a cidade antes que ela me engolisse, antes que todas as coisas boas que eu podia aproveitar acabassem sendo afetadas por essa dificuldade em lidar com uma realidade tão diferente da minha. a primeira coisa que eu fiz com essa motivação “revolucionária” foi comer enquanto cruzava a Waterloo Bridge, enquanto olhares curiosos me julgavam.

seja aqui, ali, ou em qualquer lugar, você não pode deixar de ser você mesmo. e eu sei muito bem quem eu sou, e é por isso que, sozinha em Londres, eu me sentia uma formiga prestes a ser esmagada: para sobreviver lá, eu tenho que ter alguém por perto que me entenda, que me abrace quando eu quiser chorar, e que aceite as minhas maluquices. acho que isso potencializou a minha alegria no final de semana em que eu visitei o WB Studio Tour e o chaveirinho foi pra lá: enquanto estava sozinha no Studio Tour, eu podia ser a criança que eu sou quem eu sou sem ninguém me julgar, num ambiente que me fazia me sentir em casa; e, quando o Felipe chegou lá, no dia seguinte, eu tinha do meu lado uma das pessoas que eu mais amo na vida, e que me entende do começo ao fim, e que me aceita exatamente do jeito que eu sou, e que me encoraja a seguir em frente, a perseguir os meus sonhos, e a usar meu vestido com meu All Star.

eu não sei nem se o que eu estou escrevendo está fazendo algum sentido – a eterna sina de tentar organizar meus pensamentos em linhas quase uniformes – e eu tenho absoluta certeza de que eu nunca vou de fato conseguir explicar todas as emoções e todo o crescimento que me foi imposto por conta dessa viagem, mas eu precisava dizer algumas coisas que ainda não tinham sido ditas por aqui, pra lembrar sempre delas, e também das coisas que ficarão sempre por dizer.

já coloquei as varinhas do Fred e do George na parede, que ficou completa; já preguei meu novo poster Keep Calm and Carry On no meu quarto, pra não esquecer nunca da importância de manter a calma e seguir em frente. mas a verdade é que foi exatamente em Londres, no seu berço, que esse lema fez mais sentido na minha vida.

e a gente segue em frente.

eu sigo em frente tendo um ataque de ansiedade de cada vez. eu sigo em frente dizendo o que quero dizer, sendo quem sou e quem eu quero e gosto de ser. eu sigo em frente.

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no Reino Unido: semana 04

Já estou de volta ao Brasil, mas não é por isso que não vou registrar meus últimos dias de aventuras no Reino Unido por aqui.

Bom, na segunda feira, acordei bem cedinho, terminei de arrumar as coisas de última hora, e fui pra Heathrow.  Me despedi de Londres no caminho pro aeroporto, e me dei conta de que vou mesmo sentir saudade. Enfim… ao fazer o check in, descobri que não poderia simplesmente pagar pelo excesso de peso na bagagem (lógico que isso ia acontecer), mas que tinha que tirar o excesso de peso e colocar numa terceira mala. A sorte é que tinha uma Accessorize (AMO!) bem em frente ao check in e eu comprei uma weekend bag bem fofa. Entrando no Terminal 5, a mocinha da security amou a quantidade de Mickeys nas minhas coisas (capinhas de iPhone, de iPad, chaveiros, adaptador de cartão SD, e por aí vai), e eu disse pra ela que era a primeira vez em muito tempo que não ia pra Disney nas férias e que isso tava quase me matando, mas que, mesmo sem ir pra Disney, a Disney nunca sai de mim. Fiquei impressionada com o Terminal 5, que é o mais moderno do mundo, e mais parece um shopping de tantas lojas e tantas opções de entretenimento pré-embarque. Mas eu tava mesmo doida pra chegar em Edinburgh; e lógico que não seria tão fácil assim: o vôo atrasou mais de 1 hora porque precisavam fazer reparos na aeronave. Tudo bem. Pelo menos, cheguei lá!

Cheguei em Edinburgh sob um pé d’água. O taxista que me levou do aeroporto pro hotel me disse que já tinha levado a JK Rowling em casa várias vezes, e que a casa dela é conhecida em Edinburgh como “a fortaleza Rowling”, de tão bem protegida. Estava ansiosíssima pra ir logo no The Elephant House e, assim que fiz o check in e tomei um banho, saí, mesmo sob a chuva, pelas ruas de Edinburgh, em busca do lugar onde Harry Potter “nasceu”. Lógico que eu não achei. Fiquei andando igual barata tonta, perdidinha, procurando, procurando, e nada. E, lá pelas tantas, eu tava com tanta fome, e tão cansada de pegar chuva, que parei pra comer num pub (fish n chips, claro), e deixei pra procurar The Elephant House no dia seguinte.

E é lógico que foi a primeira coisa que eu fiz na terça feira. E logo logo eu achei! Acontece que no dia anterior eu tinha ido na direção errada. É a minha cara fazer isso mesmo… Enfim. Achei The Elephant House e quase morri de emoção! Só de pensar que a tia Jo sentou lá tantas vezes pra escrever Harry Potter… Inexplicável. Depois disso, subiiiiii mais de 1800 coliiiinaaas fui até o Castelo de Edinburgh, a verdadeira fortaleza da cidade, e passei horas lá explorando o lugar. Tanta coisa pra ver! War Memorial, museu nacional, museu regimentar, … um prato cheio pra mim. Quando minha expedição exploradora no Castelo de Edinburgh acabou, almocei no Bella Italia e depois peguei um daqueles ônibus de turismo pra poder ver logo o máximo da cidade possível, e decidir o que faria no dia seguinte. Antes de voltar pro hotel, passei numa Waterstone’s e comprei mais alguns bons livros de história militar. E, de noite, saí pra jantar com a família do meu colega de mestrado que coincidentemente esteve em Edinburgh nos mesmos dias que eu, e me diverti muito com o filhotinho dele, que completa 8 anos mês que vem. Foi ótimo ter uma noite “em família” depois de tanto tempo! E isso só aumentou minha vontade de voltar logo pra casa.

Quarta feira era o último dia pra explorar Edinburgh. Tomei o ônibus turístico outra vez, e decidi visitar o Holyroodhouse Palace, a residência oficial da Rainha na Escócia. Um primor de lugar! Depois de explorar tudo com bastante calma, almocei (se é que uma refeição às 15h30-16h pode ser chamada de almoço) no Hard Rock Café, porque rock’n’roll faz falta, e finalmente cedi à cólica, e voltei pro hotel.

Andei muito em Edinburgh. Me permiti me perder por lá quantas vezes foi possível naqueles 2 dias e meio, e achei a cidade uma gracinha. Algum dia, se Deus quiser, volto lá.

Ontem era, enfim, dia de voltar pra casa! Acordei cedinho outra vez, e fui pro aeroporto de Edinburgh, dessa vez com excesso de bagagem pago online pra ser mais barato, mesmo que ainda seja um roubo. Rezei um bocado pro vôo não atrasar, porque eu queria chegar logo em casa. Ainda bem que não atrasou! Fiz a conexão tranquilamente no Terminal 5 de Heathrow, e ainda deu tempo de gastar mais umas Rainhas nas lojas de lá (hihihihihi). No avião, vi um monte de filmes, e até chorei com um deles (ridículo, eu sei, mas eu não consegui me conter).

Chegando no Rio, com uns minutinhos de atraso, foi uma alegria só. Poder chegar em casa, e ser recebida pelos meus pais com os braços cheios de saudade, é dessas coisas que não tem comparação na vida. É muito bom estar aqui com eles. É muito bom ter uma casa boa e confortável pra voltar toda vez que eu viajo. É muito bom ter gente que me ama esperando que eu volte!

Hoje me dei conta de que perdi, provavelmente no avião, as minhas lentes de contato.

no Reino Unido: semana 03

Essa semana foi muito, muito corrida (pra não dizer louca).

Segunda feira estava chovendo, pra variar. Saí da aula e, ao invés de me aventurar muito por aí, visitei a Sommerset House pra conferir a exposição de fotografias dos 50 anos dos Rolling Stones. 50 fotografias “resumindo” 50 anos de história. Uma palavra: IRADO. Adoro Rolling Stones, e fico cada vez mais fã quando posso ver algumas coisas sobre a trajetória dos caras. Depois de ver a exposição, naturalmente voltei pro cupboard pra estudar.

A terça feira era o dia da apresentação sobre nuclear deterrence. Eu naturalmente estava uma pilha. Acabou que deu tudo certo, e o professor ficou satisfeito com a nossa apresentação. Quando voltei pro cupboard, eu estava tão cansada mentalmente que eu só queria andar por aí sem rumo, ouvindo música, comendo porcaria. Fui parar lá na Tower Bridge, comi um cachorro quente com Coca Cola, e aproveitei um fim de tarde fresco na beira do rio.

Na quarta, não me senti muito bem de manhã, e acabei resolvendo sair da aula mais cedo, pra descansar e aguentar de noite ir ao Royal Albert Hall pra BBC Proms. Conversei com a mamãe a tarde inteira, e ela mandou(!) que eu saísse no dia seguinte do cupboard e fosse pro hotel.

E eu vim. Na quinta feira, mesmo tendo dormido tarde por conta do BBC Proms (que foi muito bacana), acordei cedinho e vim pro Strand Palace Hotel. Que diferença! Guerra sem conforto é extermínio. Isso é uma verdade incontestável! Não há nada melhor do que tomar um bom banho e dormir numa cama confortável – especialmente depois de quase 3 semanas de perrengue puro. Mas quinta ainda era dia de aula, e foi o dia de entregar o ensaio, e eu logicamente tive que passar por uma mini odisséia pra conseguir imprimir o trabalho. De tarde, tivemos aula no Imperial War Museum, oficialmente eleito meu lugar favorito em Londres. Quando a noite chegou, jantei com meus colegas de turma no Bella Italia e depois fomos pro Waterfront, o pub da King’s College, pro evento de encerramento. Foi divertido, mas eu não aguentei ficar até muito tarde porque estava morta da “mudança” e estava doida pra dormir na minha cama confortável.

Sexta de manhã foi a cerimônia de encerramento da Summer School. Foi bem triste despedir de todo mundo. Perrengues à parte, eu vou sentir falta. Almocei num japonês e decidi que dedicaria esse final de semana a andar poraí, meio sem rumo, e acabei revisitando alguns lugares que gostei de conhecer. Quando dei por mim, estava lá na Harrods. Imagina o problema… Pra evitar estragos muito grandes, resolvi call it a day. Voltei pro hotel, tomei um banho, me ajeitei, e fui jantar num restaurante chinês (que chama Gold Mine mas que será pra sempre lembrado por mim como  “o Chi Fu britânico”) com meus amiguinhos singaporeanos.

Na madrugada de sexta pra sábado, por volta das 3 da manhã, o alarme de incêndio do hotel tocou. Foi uma correria danada. Engraçado pensar na reação que eu tive: assim que me dei conta do que estava acontecendo (uns 3 seg depois de perceber que eu tinha realmente acordado e não estava sonhando e que tinha que sair logo do quarto), eu simplesmente agarrei a Tasha (pra quem não sabe, a Tasha é a minha coelha de pano feita pela minha vó Laércia antes de eu nascer e sem a qual eu não durmo nunca) e desci correndo as escadas; larguei no quarto passaporte, dinheiro, eletrônicos, tudo. Só quando já estava no lobby do hotel é que me dei conta do que tinha deixado pra trás. Ainda bem que não foi nada demais (aparentemente algum hóspede fumou no quarto e aí o alarme foi acionado), e logo pudemos retornar aos quartos e ficou tudo bem. Mas, pra dormir depois do susto, foi um sufuco.

Ontem de manhã duas coisas ruins aconteceram: logo que saí por aí na parte 2 da minha expedição exploradora sem rumo por Londres, com a câmera profissional em punho, me dei conta de que a lente 18-55mm estava com uma parte que conecta a lente ao corpo da câmera solta (a lente ainda funciona, mas não é seguro usá-la desse jeito porque pode forçar e o dano pode ser maior; naturalmente, só vou poder tentar consertar no Brasil, porque aqui não dava mais tempo); e, em seguida dessa descoberta, me dei conta de que tinha largado o guarda chuva da Grifinória no cupboard no alojamento na Stamford Street. Chateada é pouco pro que eu fiquei. Mas, não ia adiantar de nada ficar emburrada no meu último final de semana em Londres, então voltei rapidinho no hotel, deixei a câmera profissional (a outra lente é 55-200mm, então não é muito prática pro tipo de fotografia que eu tenho feito aqui) no quarto, e voltei a me perder pelas ruas. Logo consegui encontrar um lugar que queria muito visitar: Churchil War Rooms. Achei muito interessante poder ver como o então Prime Minister viveu durante os períodos mais difíceis da Segunda Guerra Mundial, além de ver a exposição do Churchill Museum. De lá, resolvi que ia andando até Oxford Street pro que seria uma “última olhadinha” nas lojas, mas fui desencorajada por uma funcionária do Buckingham Palace a andar até lá, então cedi ao metrô. Chegando em Oxford Street, acho que não aguentei nem meia hora, de tão cheia, quase insuportável. Rumei pra Covent Garden, onde encontrei (finalmente!) vaga num pub pra almoçar, e comi mais fish n chips. Logo voltei pro hotel pra descansar um pouco e, mais tarde, jantei no Bella Italia mais próximo antes de começar oficialmente a minha despedida da cidade da melhor forma possível: assisti ao musical The Lion King. Sentada num lugar privilegiado, eu comecei a chorar logo no iniciozinho de Circle of Life. O resto, bem, eu não preciso nem dizer o quanto fiquei emocionada. Eu não saberia mesmo explicar.

Hoje acordei e fui pra St Paul’s Cathedral. Estava com saudade de participar de uma missa, e acabei chegando na Catedral em tempo de participar da missa solene. Foi maravilhoso! E que dia maravilhoso foi hoje… Parecia verão! Depois de almoçar e cruzar a Millenium Bridge para uma tentativa de visitar o Tate Modern, decidi que o dia de hoje não pedia museu, mas sim aproveitar o sol e o céu azul e lindo. Catei um livro e fui pro Hyde Park; sentei na grama, tomei sorvete, agradeci a Deus a oportunidade de estar aqui.

A verdade é que, mesmo aos trancos e barrancos, a minha estada em Londres foi muito bacana. Novas e antigas amizades, um final de semana incrível com o meu amor, uma visita aos estúdios Leavesden, e muitas, muitas histórias pra contar.

A fase Londres da minha viagem acabou (quero dizer, mais ou menos, ainda falta terminar de arrumar as malas…), mas essa semana ainda tem um chorinho de Reino Unido pra aproveitar. Amanhã vou pra Edinburgh, onde fico até quinta, e enfim volto pra casa. Confesso que estou morrendo de saudade, e que não sei quando terei coragem de fazer outra viagem assim, sozinha. Esse mês de julho tem sido muito importante pro meu crescimento e aprendizado de maneira geral, e tenho percebido, a cada dia, que não gosto de conviver com essa solidão que a vida no estrangeiro impõe aos que se acham independentes demais.

Eu sempre me achei independente demais, e olha só o que tá acontecendo: eu não vejo a hora de voltar pra casa.

no Reino Unido: semana 02

Um pouco mais adaptada (#soquenao), a segunda semana foi menos estressante (#soquenao).

Na segunda feira, depois da aula, dei um pulo na livraria Waterstone’s da Trafalgar Square (um dos lugares de Londres pelo qual, eu nao sei porquê, eu mais passo), e fiquei enlouquecida com a quantidade de livros sobre história, história militar, e política internacional. Eu poderia ter ficado lá horas e horas e horas, mas precisava comer, e tambem chegar em “casa” numa hora razoável pra produzir academicamente alguma coisa apresentável. Jantei no restaurante Prezzo, um italiano bacana e honesto, e consegui enfim começar a escrever alguma coisa com substância.

Terça feira a aula acabou um pouco mais cedo do que o normal, então fui até Wimbledon. Eita lugarzinho longe. Eita tempinho ruim. Mas valeu a visita. Mesmo tendo que comer um sanduíche no trem, de tanta fome. Mesmo com a chuva; até porque foi porque choveu que, na volta, de dentro do trem, eu vi um arco íris. E isso é uma das poucas coisas na vida que não se vê toda hora, e que faz a gente ficar grato por ter algumas oportunidades únicas e simples assim.

Na quarta, foi dia de teatro: depois de jantar no The Cambridge, um verdadeiro pub inglês (e finalmente comer fish n’ chips), assisti Singin’ in the Rain. Que espetáculo! Até chuva (que molha umas 5 fileiras inteiras da platéia) tem! Fiquei emocionada. E, claro, quando saí do teatro, estava chovendo; só nao fiquei mais feliz com essa coincidência porque não foi tão bacana ficar esperando por um táxi no frio por 20 minutos. A saída do teatro em Shaftesbury Ave é uma coisa bem confusa! Todas as peças acabam mais ou menos na mesma hora, então todo mundo quer um táxi, ou chegar à estação de underground mais próxima, essas coisas. Complicado.

Na quinta, depois de terminar (ufa!) o ensaio que preciso entregar aqui nessa semana que logo se inicia (a última de aulas!), tivemos uma girls night out no The Wellington. Comi mais fish n’ chips, porque é bom demais, mas voltei cedo pra casa, porque sexta era dia de day trip.

Ah, sexta, dia de day trip! Eu estava tão animada pra visitar Oxford e o Castelo de Windsor! Pena que foi bem decepcionante. Achei que fôssemos passar muito mais tempo em Oxford, mas foi bastante corrido. O Castelo de Windsor é bacana, mas eu espirrei muito. Enfim. Faz parte.

Ontem, sábado, resolvi tomar meu rumo e fui sozinha pra Notting Hill. Tava chovendo, mas quem liga? É um lugarzinho muito simpático mesmo. Fiquei doida com a feirinha! Comprei várias coisinhas bacanas, mas comprei também A COISA MAIS BACANA DE TODAS: uma máquina fotografica FED-4, made in USSR! To apaixonada. Quero logo sair com ela por aí fotografando o mundo através de lentes verdadeiramente socialistas! Depois de Notting Hill, estudei um pouco e, quando deu a hora, rumei pra Paddington: fui assistir a mais um musical — Wicked! Que maravilha! Uma superprodução. Foi incrível! Antes do teatro, jantei no Prezzo mais proximo de lá: comi dois pratos diferentes (uma invenção genial pros gordos que não conseguem decidir por um prato só). Ao chegar em casa do teatro, a lâmpada do quarto estava queimada.

Hoje acordei cedo e a primeira coisa que fiz foi comunicar a recepção que a lâmpada do quarto estava queimada; me disseram que so vão trocar amanhã. Resultado: só posso escrever/estudar enquanto houver luz do dia (a sorte é que tem anoitecido razoavelmente tarde). Enfim… de volta às coisas boas: de manhã, fui ao Victoria & Albert Museum (aka V&A). Passei a manhã lá, até que deu a hora de encontrar os coleguinhas com os quais farei a apresentação sobre nuclear deterrence na terça feira próxima. Depois de discutirmos um pouco, e almoçarmos juntos, dei um pulo na National Gallery: um lugar bem bacana, enorme, onde pude me perder do jeito que gosto. Mas, se alguem me perguntar, vou ser obrigada a dizer a verdade: que gostei mais do V&A…

Amanhã começa a última semana da summer school. Ainda há muito por fazer, e muita Londres pra ver. Eu só espero que eu pare de comer tanto (sim, eu estou comendo muito, muito mais do que eu pensava), e espero que de tempo de fazer tudo… E, bem, se parasse de chover um pouquinho, eu também não ia reclamar!

no Reino Unido: semana 01

Desde que cheguei aqui, tudo tem sido uma aventura – na falta de palavra melhor pra descrever o que vivi na ultima semana.

Cheguei num domingo, e vim direto pro meu “apartamento” na Stamford Street. E, chegando aqui, me deparei com um quarto minúsculo (ok, eu sabia que seria um quarto pequeno pelas fotos que tinha visto, mas não sabia que seria tão pequeno), com um banheiro menor ainda (que não tem tampa no vaso e nem mesmo uma cortina pra separar o chuveiro, resultando em uma quase inundação toda vez que tomo banho). A primeira coisa que eu precisava providenciar era um adaptador de tomadas, então corri pra Boots mais próxima (na estação de Waterloo), e acabei comprando também água – porque, né, é importante. Voltando pra casa, descobri outro inconveniente: só seria liberado o acesso a internet no dia seguinte, depois que recebêssemos nossas carteirinhas da King’s College. Não tinha a menor condição de esperar mais 24 horas pra usar a internet, avisar ao chaveirinho que já tinha chegado, e chegado viva, e checar emails, essas coisas; acabei comprando um acesso de 24 horas de internet disponibilizado pela cidade (achei isso genial: diferentes planos para que as pessoas tenham acesso a redes wi-fi em diversos pontos da cidade).

Era domingo, e era a final da Eurocopa. No grupo do Facebook, muitas pessoas tinham combinado de assistirmos todos juntos ao jogo. Mas, como em qualquer lugar do mundo, a maioria furou. Acabamos fechando um grupo pequeno e assistimos ao jogo num pub próximo; a Itália perdeu. Uma pena.

Na segunda feira, era dia de King’s College; fomos apresentados ao campus, e ao nosso professor – um senhor muito bacana, que conheceu todo mundo que importa nas RI. Fiquei apaixonada de cara pelo jeito dele dar aula. Achei incrível como ele consegue falar sobre tantos temas com tanta naturalidade, e com tantos insights incríveis – foi assim na segunda, terça, quarta e quinta.

Pois é. Eu tenho aulas todos os dias. E, além das aulas, tenho uma apresentação a preparar, e um ensaio pra entregar; sem contar os trabalhos do mestrado. Tá puxado essa vida de estudante/turista, viu.

Decidi que, na primeira semana, deveria visitar, após as aulas, o maior número possível de Potter places in London. Trafalgar Square e Leicester Square (onde aconteciam as premieres, com direito a foto em frente ao ODEON em Leicester Square), Westminster/The Clock Tower, Picadilly Circus, Shaftesbury Avenue, e, claro, King’s Cross Station – onde eu quase chorei quando vi a plaquinha indicando “Plataform 9 3/4”. Nessas andanças, também já visitei West End, Regent Street, Oxford Street, Covent Garden, Rosso Pomodoro, Chinatown, National Gallery Museum, Buckingham Palace, Green Park; e fiz comprinhas bacanas na Liberty London, TopShop, H&M, Accessorize, Zara, Harrod’s, …

Mas, por mais que estivesse amando as aulas e os passeios, eu queria mesmo que chegasse logo o final de semana. Na sexta feira, acordei cedinho, vesti minha t-shirt de Hogwarts e meu cardigan da Gryffindor (e, claro, o trench coat por cima, porque nessa cidade chove demais), tomei o trem e fui pra Watford Junction: eu finalmente realizaria o sonho de visitar Leavesden Studios. Meu Deus. Eu não sei nem explicar a emoção que eu senti; talvez eu precise de alguns anos pra processar todo o amor e a alegria que eu senti naquela sexta feira fria e chuvosa. Tudo estava lá: o majestoso Great Hall, a Gryffindor Common Room, The Burrow, o Ministério da Magia, o escritório de Albus Dumbledore, o Beco Diagonal, a sala de Poções, … muitos props, costumes, e varinhas; maquiagem, perucas, figurinos; Privet Drive n.4, Knightbus, Potter’s Cottage, Ford Anglia; modelos em miniatura de diversos cenários, e, ao final de tudo, um modelo em escala – simplesmente enorme, mas não o suficiente pra entrarmos nele – do Castelo de Hogwarts e suas adjacências.  Já tinha me emocionado em diversos momentos do meu passeio, mas nada foi tão incrível quanto ver Hogwarts tão majestosa na minha frente; chorei, chorei muito. E acho que a emoção foi potencializada porque, ao entrar nessa sala, estava tocando “Leaving Hogwarts” – que, coincidentemente, foi a última música usada num filme Harry Potter. Eu, sei lá, eu acho que não sou capaz de put down in words o que eu senti; o que eu estou sentindo. Só sei que recomenda-se passar 3 horas no WB Studio Tour, e eu passei quase 7 horas lá. E eu ainda voltaria se pudesse – pena que não tem mais ingresso pra vender pra julho.

A sexta já tinha sido incrível, mas o sábado também seria mais do que especial. Acordei 4 da manhã, me organizei, esperei o taxi chegar, e fui buscar meu chaveirinho no aeroporto. Até agora eu não to acreditando que o meu amor veio mesmo passar o aniversário dele comigo aqui. Ele chegou ontem cedo, e voltou pro Zimbábue hoje de tarde; passamos pouco mais de 30 horas juntos, mas foram 30 horas que valeram por dias, meses, anos. Fomos à London Eye, ao Sherlock Holmes Museum, Abbey Road, almoçamos num restaurante Georgiano e jantamos num fancy restaurant muito metido à besta antes de irmos ao tatro assistir “The Sunshine Boys” com Danny DeVito e Richard Griffiths (morremos de rir, e eu fiquei emocionada de ver on stage, e tão perto de mim, um ator que fez parte de Harry Potter). Depois de passeios e presentes, fui levá-lo no aeroporto hoje, e chorei de novo. Essa parte de mim que vai embora, quando me deixa, me faz sentir uma saudade imensa. Como não chorar?

Eu admito que, ultimamente, to muito chorona, mais do que o normal. Mas isso faz parte. Tem sido tempos difíceis, e essa vinda pra Londres não tem deixado muito tempo pra diversão, mas sim me exigido ainda mais do que eu já tinha que fazer. E o choro é uma emoção legítima, como o riso. E, se me dá vontade, eu choro mesmo.

Essa primeira semana foi feliz, mas não é por isso que eu não vou chorar de saudade – seja de um banheiro decente e uma cama confortável, seja dos meus pais, seja do chaveirinho.

Aqui, to crescendo. Definitivamente, não voltarei pra casa do mesmo jeito que saí. To crescendo, e é assim que tem que ser.

A segunda semana já vai começar.