as muitas saudades

se tem uma coisa com a qual eu estou aprendendo – ou tentando aprender – a lidar na minha vida é com essa tal de saudade.

aliás, saudade é uma palavra que me intriga há muito tempo – pelo menos, há tanto tempo quanto eu me lembro. acho que desde que eu comecei a estudar outras línguas, e descobri que não há em nenhuma outra língua uma palavra como saudade, que há apenas expressões que podem significar algo próximo do que a palavra saudade define, eu fiquei mais e mais curiosa sobre o que é mesmo essa tal de saudade.

ao longo dos anos, eu descobri que não há uma só saudade, mas várias saudades. há a saudade de pessoas, e há a saudade das coisas. há a saudade dos lugares, e há a saudade dos tempos idos. há a saudade de quem se vê todos os dias, há a saudade de quem não se pode ver toda hora, há a saudade de quem se sabe que não se pode ver mais. há a saudade do que se foi, há a saudade do que ainda vai ser. a verdade é que muitas vezes eu sinto saudade até do que eu não vivi.

tem também a saudade de sentir saudade. e certamente há muitos outros tipos de saudade; saudades que talvez eu não tenha sentido ainda, ou que não conseguiria descrever em poucas linhas tortas, ou não saberia explicá-las, enfim.

penso na saudade de algumas pessoas que passaram pela minha vida, mas que o tempo e as circunstâncias fizeram com que eu perdesse o contato. essas pessoas, tão especiais, fazem parte de um passado muito feliz e um tanto sofrido. essas pessoas, levadas pelo tempo e pelas circunstâncias, jamais realmente ficarão totalmente de fora da minha vida, pelo tanto que significaram, pelo tanto que significam. quem sabe, um dia, o tempo e as circunstâncias serão generosos e poderão trazer essas pessoas de volta à minha vida, para que eu possa dizer-lhes que jamais as tirei do coração, tampouco que meu carinho por elas diminuiu.

depois, tem a saudade de quem se foi, de quem foi pra junto de Deus. tanta gente querida, tantos familiares, tantos conhecidos, tantos amores. um amor incondicional (sim, a Mivó, aquela de quem tanto falo aqui, e que provavelmente ainda falarei muito mais). a saudade de quem se foi dói, aperta, faz lágrimas rolarem, faz abraços surgirem. ah, esses abraços que surgem pra tentar consolar a perda, que tentam trazer conforto nas horas difíceis; abraços que são, por vezes, sociais, enquanto, graças a Deus, são, na maioria das vezes, os mais sinceros e (quase) reconfortantes. e, quando eu penso em quem se foi, e penso na saudade que deles sinto, fico imaginando se, algum dia, quando eu também der o primeiro passo rumo à aventura seguinte, poderei vê-los de novo, e abraçá-los de novo, e dizer-lhes o quanto me fizeram falta. honestamente, não sei. acredito na ressurreição, mas nunca poderei saber o que acontece depois da morte. acho que é por isso que, por vezes, me pego falando sozinha como se um deles que se foi ainda estivesse por aqui, como se ouvissem minhas lamúrias, minhas dores, minhas manifestações sinceras de saudade.

tem a saudade de quem se vê todo dia. eu achava engraçado quando o papai falava que estava com saudade de mim, e eu retrucava dizendo “como você pode estar com saudade de mim, papai, se eu fiquei em casa o dia inteiro?”. custou um pouco pra compreender que essa saudade de quem se vê todo dia existe, e persiste em cada minuto que nos negamos à convivência daqueles que estão perto de nós. eu passei a refletir mais sobre essa saudade, e a senti-la de verdade, depois que comecei o mestrado: posso passar dias e dias em casa, e pouco ver os meus pais, porque preciso estudar um tanto. quando chega a hora do almoço ou do jantar, o meu coração se enche de felicidade porque sei que aqueles minutos ali na mesa não poderão ser ocupados por livros, iPad, artigos, cadernos; aqueles minutos em que estou sentada à mesa com meus pais é deles, é nosso.

tem também a saudade de quem se vê quase todo dia. essa saudade eu sinto mais do príncipe, o melhor amigo que eu poderia ter no mundo, mais do que de qualquer pessoa que eu vejo quase todo dia. já não o vejo tanto quanto antes, o que muitas vezes torna meus dias um pouquinho mais difíceis. mas, mesmo sem encontrá-lo diariamente, ou quase diariamente, sei que ele está sempre por perto, e que não importa o que aconteça, we’ve got each others back.

tem a saudade de quem forçadamente está tão longe, e tão perto. lógico que a minha referência imediata dessa saudade é o meu chaveirinho. ao mesmo tempo em que há um oceano entre nós, esse forçado motivo de tanta saudade, o meu amor é uma presença tão forte e tão certa na minha vida que eu não consigo imaginar os meus dias sem ele. a verdade é que eu acho que sentia saudades dele mesmo antes de conhecê-lo, ainda que eu não saiba explicar direito como isso funciona. essa mistura de saudade e amor faz com que a contagem regressiva para o nosso próximo encontro se confunda com as tantas atividades em que tento me engajar pra fazer com que esses dias passem mais rápido, enquanto fico grudada no celular esperando pela próxima mensagem ou pela próxima oportunidade de ouvir a voz dele. e, a cada tanto de saudade que eu sinto, mais o amor cresce dentro de mim. já não consigo medir mais o amor e a saudade de tão intrínsecos eles são; só sei que é amor demais, é amor forte, é amor sem fim.

uma saudade que eu sinto constantemente é a saudade dos lugares que já visitei, e principalmente do lugar que mais gosto de visitar (sim, estou falando de Orlando). essa saudade sempre aumenta em tempos difíceis, porque é nessas horas em que eu gostaria de fugir de tudo, viajar, ser quem eu mais gosto de ser; e é nessas horas em que tenho que ser mais forte e enfrentar de frente a saudade e encarar as dores dos tempos difíceis. afinal, é preciso escolher o que é certo, e que nem sempre é o caminho mais fácil.

aliás, minhas escolhas costumam não ser dos caminhos mais fáceis. talvez eu sinta saudade dessas escolhas que eu nunca fiz.

e já engato aqui, então, nesse outro tipo tão peculiar de saudade: a saudade do que ainda não vivi, ou dos lugares que ainda não visitei, ou das coisas que nunca fiz, ou das coisas que jamais poderei viver porque ficaram no passado. uma dessas saudades que eu sinto é a saudade da época da Jovem Guarda e da Bossa Nova. eu nem sonhava em nascer, e, mesmo assim, quando ouço relatos da época, ou leio sobre, ou ouço as canções que você fez pra mim as canções da época, me bate uma saudade tremenda de viver esses períodos que me parecem tão maravilhosos. sinto saudade dos lugares que ainda não fui e que, de tanto pesquisar, já me parecem tão familiares; sinto dos lugares que em breve visitarei, e onde sei que deixarei parte de mim; sinto saudade de um país que, há pouco tempo atrás, não era mais do que mais um país da África, e onde, hoje, mora parte de mim.

pensando bem, é muita saudade que eu sinto. eu sinto muitas saudades. talvez todas essas saudades que eu sinto nem caibam direito em mim, e talvez seja por isso mesmo que eu precise falar tanto delas, tantas e repetidas vezes.

por vezes, sentir saudade é bom, é gostoso, aquece o coração; por vezes, as saudades vem acompanhada da tristeza, do choro autêntico, da falta que algo nos faz.

essas saudades são parte do que eu sou.

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