Arquivo do mês: maio 2012

o primeiro mês sem você

passado o primeiro mês desde que você se mudou pro Zimbábue, já pudemos ter uma ideia do que nos aguarda até que 2014 traga você de volta pra mim.

estamos usando a internet a nosso favor, de todas as formas possíveis. você logo providenciou um 3g no celular, o que é uma mão na roda.  é whatsapp o máximo possível, é viber pra conversar quando os videochats do gtalk ou do facebook travam demais. é bateria que acaba enquanto você está acordado, é quase descaso com o iPhone quando sei que você já está dormindo.

nos emails diários, são fotos vindo daí pra cá, com partes do seu dia; são vídeos daqui praí com músicas escolhidas com carinho pra dar continuidade às mixtapes que eu fiz pra você quando eu jurava que eu ia conseguir me controlar porque eu sabia que não ia aguentar sentir saudade de você como nada além de um amigo.

eu acho graça como eu sou tão inocente.

tem as declarações e juras de amor, countdown, e as pequenas maluquices pra trazer mais conforto à nossa guerra. também tem as várias promessas e, claro, os planos, os muitos planos pra quando pudermos estar juntos de novo. entre as minhas esperanças, a mais forte delas é a de que todos esses planos se tornem realidade, e que todas as promessas sejam cumpridas.

o engraçado é que, nesse primeiro mês sem você, por mais que a distância física seja real, não há um segundo em que eu não sinta a sua forte presença junto de mim. é quase como se eu pudesse sentir seus abraços e seus afagos – quando, por exemplo, você se preocupa com a minha saúde deficiente e com os meus acidentes diários, ou quando eu estou chorosa demais (porque eu sou assim mesmo e você sabia da fria em que estava entrando). naturalmente, não há como negar que há um Oceano Atlântico entre nós, e que o mais provável é que até 2014 assim seja na maior parte do tempo, eu aqui e você aí, mas é que eu finalmente consigo entender o que é sentir algo tão forte que nem a distância pode tornar ralo.

é forte, mas é foda ficar sem você.

e tem horas que eu não aguento, e peço pra você voltar, por mais que eu saiba que isso é impossível. e aí as suas reações são diversas: ora você me diz pra tentar ocupar minha cabeça o máximo possível com as coisas que tenho ao meu dispor, me incentiva a aproveitar a companhia dos meus parentes e amigos, a passear e aproveitar o máximo que posso; ora você me pede pra ir praí. eu tenho aproveitado as coisas nesse último mês o máximo que eu pude, só que não há nada que eu faça que não me lembre de você, que não me dê uma vontade imensa de ter você por perto. e é nessas horas que me dá uma vontade indescritível de simplesmente largar tudo e ir ser feliz no Zimbábue com quem eu amo tanto.

haja cabeça fria pra pensar as consequências dos nossos atos.

e aí dá aquele aperto no peito quando eu lembro desse tal Oceano Atlântico nos separando. e aí é preciso conter os impulsos e a ansiedade – a famosa – porque um dos fortes inconvenientes dessa distância é a diferença de fuso horário. então não dá pra eu simplesmente te ligar a qualquer hora porque você precisa dormir e descansar.

nós sabíamos exatamente o que teríamos que encarar ao entrar nessa e assumir esse relacionamento. e a verdade é que eu não me arrependo nem por um segundo por ser obrigada a sentir toda essa saudade, porque o amor que eu sinto por você é maior do que a saudade – que é enorme.

aliás, é difícil esse negócio de mensurar amor e saudade.

por aqui, tem aqueles que, ao descobrir pedaços dessa nossa história razoavelmente bizarra e absolutamente honesta, dão força, dizem torcer por nós, incentivam. mas, é claro, tem também aqueles que não acreditam. ah, os descrentes. que seria da vida sem eles? o que eles não entendem, nem nunca vão entender, é que, ainda que nenhum dos nossos planos se realize, eu não vou me arrepender nadinha de tê-los feito, e de vivenciar cada momento desse relacionamento tão peculiar e tão sincero como o nosso.

a verdade é que, mesmo com todas as dificuldades, eu prefiro mil vezes poder te amar desse jeito do que se eu não pudesse te amar at all. pior ainda seria se nós nunca tivéssemos deixado de resistir a algo tão natural pelo puro medo de encarar de frente essa distância, vencendo os desafios a cada dia, e eu estivesse aqui, igual a uma idiota, na melhor das hipóteses recebendo notícias suas de tempos em tempos, e sofrendo por não ter sido mais corajosa e ter te beijado antes da sua mudança.

ainda bem que eu encontrei você. ainda bem que eu fui meio inconsequente. ainda bem que você me abriu seus braços e, num abraço, me fez sentir todas essas coisas tão boas que eu jamais vou conseguir explicar.

ainda bem que, mesmo há um mês em continentes diferentes, nós não ficamos indiferentes nem por um segundo.

ainda bem que, mesmo há um mês em continentes diferentes, eu te amo mais a cada segundo.

agonizando com alegria

a gente percebe que o final do semestre está chegando quando a lista de atividades por fazer vai aumentando.  juntam-se às responsabilidades cotidianas os muitos seminários e ensaios que é preciso entregar, no meu caso, no mestrado. entre o muito que tenho por escrever, figura o meu pré-projeto de pesquisa. aí aparecem muitos desafios, todos lembrados pela página branca na minha frente.

meu Deus, falta pouco mais de 1 mês pro semestre acabar! it just hit me

foi nessa semana, desafiada por essas atividades que devo entregar em breve, que eu me dei conta de como é bonito o processo criativo, ainda que agonizante. quando começamos a escrever uma coisa, não existe nada na nossa frente além de uma folha em branco – ou, melhor dizendo, uma página do Word em branco. e, ao fim, podemos sentir aquela alegria ao percebermos que enchemos todo aquele espaço em branco com tantas palavras que, juntas, criam algum sentido.

eu devo admitir que, muitas vezes, vejo a página em branco como um monstro. parece que as palavras não querem se organizar na minha cabeça de forma que as minhas mãos consigam escrevê-las. começar é sempre um desafio; começar a escrever coisas que estão sendo avaliadas é apavorante.

lembro-me de uma vez em que escrevi um ensaio e que o recebi de volta do professor com a palavra REESCREVER escrita na capa. eu acho que nunca me senti tão estúpida na vida quanto ao tentar reescrever aquelas linhas tortas. eu tenho mesmo uma dificuldade enorme em aceitar que eu não preciso fazer as coisas de maneira perfeita, e que é um direito natural errar, e errar. o meu perfeccionismo é um grande inimigo, que anda de mãos dadas com a minha ansiedade. e ter que reescrever aquele ensaio me exigiu um exercício grande pra perceber que não há problema em ter que fazer algo de novo porque não saiu perfeito da primeira vez. o desafio, ali, já não era uma página branca, mas encontrar, em meio a tantas linhas escritas naquelas páginas, uma maneira de expressar melhor o que eu estava pensando. e o resultado foi tão bom que valeu a pena ter que passar por aquela frustração inicial.

o processo de escrever não é nada mais do que uma sequência de etapas em que agonizamos com alegria. seja aqui nesse espaço torto, ou nas minhas atividades acadêmicas, cada página em branco é, pra mim, um desafio que deve ser superado. e é por isso que eu insisto em escrever.

refletindo sobre isso, me veio uma pergunta: não seria a vida também uma página em branco onde devemos escrever nossos erros, medos e alegrias, superando desafios e comemorando vitórias?

as muitas saudades

se tem uma coisa com a qual eu estou aprendendo – ou tentando aprender – a lidar na minha vida é com essa tal de saudade.

aliás, saudade é uma palavra que me intriga há muito tempo – pelo menos, há tanto tempo quanto eu me lembro. acho que desde que eu comecei a estudar outras línguas, e descobri que não há em nenhuma outra língua uma palavra como saudade, que há apenas expressões que podem significar algo próximo do que a palavra saudade define, eu fiquei mais e mais curiosa sobre o que é mesmo essa tal de saudade.

ao longo dos anos, eu descobri que não há uma só saudade, mas várias saudades. há a saudade de pessoas, e há a saudade das coisas. há a saudade dos lugares, e há a saudade dos tempos idos. há a saudade de quem se vê todos os dias, há a saudade de quem não se pode ver toda hora, há a saudade de quem se sabe que não se pode ver mais. há a saudade do que se foi, há a saudade do que ainda vai ser. a verdade é que muitas vezes eu sinto saudade até do que eu não vivi.

tem também a saudade de sentir saudade. e certamente há muitos outros tipos de saudade; saudades que talvez eu não tenha sentido ainda, ou que não conseguiria descrever em poucas linhas tortas, ou não saberia explicá-las, enfim.

penso na saudade de algumas pessoas que passaram pela minha vida, mas que o tempo e as circunstâncias fizeram com que eu perdesse o contato. essas pessoas, tão especiais, fazem parte de um passado muito feliz e um tanto sofrido. essas pessoas, levadas pelo tempo e pelas circunstâncias, jamais realmente ficarão totalmente de fora da minha vida, pelo tanto que significaram, pelo tanto que significam. quem sabe, um dia, o tempo e as circunstâncias serão generosos e poderão trazer essas pessoas de volta à minha vida, para que eu possa dizer-lhes que jamais as tirei do coração, tampouco que meu carinho por elas diminuiu.

depois, tem a saudade de quem se foi, de quem foi pra junto de Deus. tanta gente querida, tantos familiares, tantos conhecidos, tantos amores. um amor incondicional (sim, a Mivó, aquela de quem tanto falo aqui, e que provavelmente ainda falarei muito mais). a saudade de quem se foi dói, aperta, faz lágrimas rolarem, faz abraços surgirem. ah, esses abraços que surgem pra tentar consolar a perda, que tentam trazer conforto nas horas difíceis; abraços que são, por vezes, sociais, enquanto, graças a Deus, são, na maioria das vezes, os mais sinceros e (quase) reconfortantes. e, quando eu penso em quem se foi, e penso na saudade que deles sinto, fico imaginando se, algum dia, quando eu também der o primeiro passo rumo à aventura seguinte, poderei vê-los de novo, e abraçá-los de novo, e dizer-lhes o quanto me fizeram falta. honestamente, não sei. acredito na ressurreição, mas nunca poderei saber o que acontece depois da morte. acho que é por isso que, por vezes, me pego falando sozinha como se um deles que se foi ainda estivesse por aqui, como se ouvissem minhas lamúrias, minhas dores, minhas manifestações sinceras de saudade.

tem a saudade de quem se vê todo dia. eu achava engraçado quando o papai falava que estava com saudade de mim, e eu retrucava dizendo “como você pode estar com saudade de mim, papai, se eu fiquei em casa o dia inteiro?”. custou um pouco pra compreender que essa saudade de quem se vê todo dia existe, e persiste em cada minuto que nos negamos à convivência daqueles que estão perto de nós. eu passei a refletir mais sobre essa saudade, e a senti-la de verdade, depois que comecei o mestrado: posso passar dias e dias em casa, e pouco ver os meus pais, porque preciso estudar um tanto. quando chega a hora do almoço ou do jantar, o meu coração se enche de felicidade porque sei que aqueles minutos ali na mesa não poderão ser ocupados por livros, iPad, artigos, cadernos; aqueles minutos em que estou sentada à mesa com meus pais é deles, é nosso.

tem também a saudade de quem se vê quase todo dia. essa saudade eu sinto mais do príncipe, o melhor amigo que eu poderia ter no mundo, mais do que de qualquer pessoa que eu vejo quase todo dia. já não o vejo tanto quanto antes, o que muitas vezes torna meus dias um pouquinho mais difíceis. mas, mesmo sem encontrá-lo diariamente, ou quase diariamente, sei que ele está sempre por perto, e que não importa o que aconteça, we’ve got each others back.

tem a saudade de quem forçadamente está tão longe, e tão perto. lógico que a minha referência imediata dessa saudade é o meu chaveirinho. ao mesmo tempo em que há um oceano entre nós, esse forçado motivo de tanta saudade, o meu amor é uma presença tão forte e tão certa na minha vida que eu não consigo imaginar os meus dias sem ele. a verdade é que eu acho que sentia saudades dele mesmo antes de conhecê-lo, ainda que eu não saiba explicar direito como isso funciona. essa mistura de saudade e amor faz com que a contagem regressiva para o nosso próximo encontro se confunda com as tantas atividades em que tento me engajar pra fazer com que esses dias passem mais rápido, enquanto fico grudada no celular esperando pela próxima mensagem ou pela próxima oportunidade de ouvir a voz dele. e, a cada tanto de saudade que eu sinto, mais o amor cresce dentro de mim. já não consigo medir mais o amor e a saudade de tão intrínsecos eles são; só sei que é amor demais, é amor forte, é amor sem fim.

uma saudade que eu sinto constantemente é a saudade dos lugares que já visitei, e principalmente do lugar que mais gosto de visitar (sim, estou falando de Orlando). essa saudade sempre aumenta em tempos difíceis, porque é nessas horas em que eu gostaria de fugir de tudo, viajar, ser quem eu mais gosto de ser; e é nessas horas em que tenho que ser mais forte e enfrentar de frente a saudade e encarar as dores dos tempos difíceis. afinal, é preciso escolher o que é certo, e que nem sempre é o caminho mais fácil.

aliás, minhas escolhas costumam não ser dos caminhos mais fáceis. talvez eu sinta saudade dessas escolhas que eu nunca fiz.

e já engato aqui, então, nesse outro tipo tão peculiar de saudade: a saudade do que ainda não vivi, ou dos lugares que ainda não visitei, ou das coisas que nunca fiz, ou das coisas que jamais poderei viver porque ficaram no passado. uma dessas saudades que eu sinto é a saudade da época da Jovem Guarda e da Bossa Nova. eu nem sonhava em nascer, e, mesmo assim, quando ouço relatos da época, ou leio sobre, ou ouço as canções que você fez pra mim as canções da época, me bate uma saudade tremenda de viver esses períodos que me parecem tão maravilhosos. sinto saudade dos lugares que ainda não fui e que, de tanto pesquisar, já me parecem tão familiares; sinto dos lugares que em breve visitarei, e onde sei que deixarei parte de mim; sinto saudade de um país que, há pouco tempo atrás, não era mais do que mais um país da África, e onde, hoje, mora parte de mim.

pensando bem, é muita saudade que eu sinto. eu sinto muitas saudades. talvez todas essas saudades que eu sinto nem caibam direito em mim, e talvez seja por isso mesmo que eu precise falar tanto delas, tantas e repetidas vezes.

por vezes, sentir saudade é bom, é gostoso, aquece o coração; por vezes, as saudades vem acompanhada da tristeza, do choro autêntico, da falta que algo nos faz.

essas saudades são parte do que eu sou.

sobre as perdas

é, tem sido uns anos difíceis.

nos últimos anos, venho perdendo pessoas importantes na minha vida, e a dificuldade de lidar com essas perdas é imensa.

em março de 2003, morreu meu tio João, que me fez enfrentar pela primeira vez a realidade da morte de alguém muito próximo e muito querido. passaram-se uns anos, em que as perdas continuavam acontecendo. mas foi em 2007 que as peças do dominó começaram a cair de maneira rápida, com todas as doenças e dificuldades que levaram a cada uma das mortes seguintes, me fazendo ter tanta dificuldade em lidar com elas. em janeiro de 2007, morreu meu padrinho Márcio, aquele que verdadeiramente cumpria o papel de segundo pai. em janeiro de 2009, morreu meu tio Tarcisio, que, com suas brincadeiras e risadas marcantes deixou um silêncio terrível na minha vida. em setembro de 2009, morreu minha vó Laércia, que, mesmo na velhice, tanto me ensinou sobre superação. em agosto de 2010, morreu a Mivó, o amor incondicional e eterno de quem é insubstituível, a saudade mais absurda que eu poderia sentir na minha vida. em junho de 2011, morreu tia Sílvia Helena, um exemplo de força e humildade. e agora, em maio de 2012, perco, de maneira brutal, meus tios Carlinhos e Hellé-Nice, aqueles que tanto me amavam e tanto me davam carinho.

a verdade é que, há pouco, todos eles estavam ao meu lado, dividindo alegrias, dores, anseios, emoções. não mais do que de repente, eles se foram, deixando um vazio imenso e uma saudade presente. a lembrança das vozes amigas, dos sorrisos, dos abraços e da disponibilidade realimentarão o amor que jamais se apagará no meu coração.

a verdade é que tem horas em que me falta o chão, me falta o ar; às vezes, me falta a capacidade de compreender a morte. e é nessas horas em que eu mais preciso me apegar à minha fé e à crença de que a morte é o primeiro passo da aventura seguinte.

a verdade é que, enquanto me sobra a dor, me faltam as palavras.

só o silêncio pode dizer a saudade que eu sinto de cada um de vocês.