Arquivo do dia: março 25, 2012

sobre violência, juventude e o estado de natureza

ontem fui assistir ao filme “Jogos Vorazes”, adaptação de livro homônimo. o motivo principal que me levou a querer assistir este filme foi porque qualquer merda que falam que é “o novo Harry Potter” ou “um fenômeno comparável a Harry Potter” ou qualquer coisa nesse sentido eu faço questão de assistir – porque, se for pra falar bem, ou se for pra falar mal, eu quero falar com propriedade.

o irmão do meu melhor amigo, também conhecido como Príncipe Infante, leu a série dos livros. já tinha perguntado a ele quais eram as impressões dele sobre a história, e ele me disse, entusiasmado, que era muito legal, e que eu deveria ler.

resolvi, primeiro, assistir ao filme. inclusive, minutos antes de entrar na sala de cinema, estávamos numa Livraria Saraiva (n.a.: não, eu não recebi nada pra fazer propaganda da Saraiva. quem me dera! eu apenas sou uma consumidora assídua), e, vendo aquela multidão de adolescentes entusiasmados, cheguei a considerar ler os livros, caso eu gostasse do enredo mostrado no filme.

seguimos, então, para assistir ao filme. passaram-se mais de 2 horas de uma fita sanguinolenta, apresentada a um público predominantemente jovem (a classificação era 12 anos – e muitos adolescentes estavam lá ocupando os lugares na sala).

o enredo pode ser resumido assim: 24 jovens entre 12 e 18 anos vão pro meio de uma floresta e só um poderá sair de lá vencedor – tendo que matar seus adversários pra sair vivo.

eu não sei o que mais me assustou no filme: as cenas verdadeiramente sanguinolentas, talvez piores do que as mais explícitas batalhas em filmes de guerra, ou o fato de que os adolescentes vibravam a cada morte de um personagem teoricamente menos querido do que outro.

porque, naturalmente, como em qualquer história, existem os personagens ruins e os bons; existe a mocinha, o mocinho, a gangue malvada, tudo está lá. e até o mais crítico dos expectadores acaba torcendo pelos mocinhos em algum momento – nem que seja só pra que eles se beijem logo e parem de postergar o que todo mundo já sabia que ia acontecer.

ao ver toda aquela violência retratada numa tela enorme de cinema, o meu corpo reagia ao que eu estava vendo – fiquei com dores musculares de tanta tensão – ao mesmo tempo em que meu cérebro tentava processar a ideia de que jovens no mundo inteiro, enquanto ainda estão em formação da sua personalidade e caráter, aclamam essa série – ou, pelo menos, acreditam em alguns críticos literários que apontaram a série como um grande fenômeno.

cada cena me lembrava diretamente do Estado de Natureza descrito por Thomas Hobbes. de forma resumida, o Estado de Natureza é compreendido pelos contratualistas como o estágio anterior à construção da sociedade civil. para Hobbes, o Estado de Natureza é qualquer situação onde não há um governo que estabeleça a ordem, e onde todos os seres humanos são inguais no seu egoísmo, fazendo com que a ação de um só seja limitada pela força do outro. o Estado de Natureza é sempre um estado de Guerra – que pode acontecer a qualquer momento e sem causa aparente.

na história que eu assisti retratada naquele filme ontem, existia um governo – Capitol – que controlava 12 Distritos que, outrora, se rebelaram, mas foram contidos. por conta dessa rebelião, foram criados os tais Jogos Vorazes – uma espécie de Big Brother misturada com Torneio Tribruxo, só que cheio de sangue -, objetivando fazer lembrar que a rebelião contra Capitol deveria e deverá ser castigada. só que este governo, ao invés de garantir a sobrevivência dos seus cidadãos, sorteava entre eles os tais 24 Tributos – sempre um menino e uma menina de cada Distrito – para lutar entre si, até a morte.

o que me assusta é a banalização da violência. me assusta ver jovens batendo palmas para cenas em que há morte, sangue jorrando por todos os lados, como se isso fosse algo moralmente aceitável. me assusta pensar que esses jovens podem incorporar determinados aspectos da tal história contada e retratada e resolver sair por aí agredindo uns aos outros, por egoísmo ou voracidade.

sou uma pessoa razoavelmente chegada aos conflitos. gosto de estudar a guerra, gosto de história militar – afinal, se não gostasse, não teria escolhido um curso de mestrado absolutamente militarizado, que é o curso de Estudos Estratégicos da Defesa Nacional e da Segurança Internacional. o período que eu mais gosto da história é também o mais perigoso – a Guerra Fria. se pudesse dar merda, teria dado. porque, né, explodiria uma guerra nuclear, minha gente.

pra trazer um pouco mais de empiria pro que estou falando, cito em tradução livre o que Baylis & Wirtz já registraram: a maioria dos estrategistas, por reconhecer a verdadeira natureza da guerra, considera o conflito armado uma tragédia, uma atividade que não deveria ser empreendida por seres humanos, e que deve ser limitada na maior extensão possível.

conversando com o mesmo Príncipe Infante já mencionado neste texto, ele me explicou que, no livro, há uma tangência pra compreender que a história é uma crítica à manipulação que a mídia exerce sobre as pessoas. e isso é perceptível, de fato, mesmo no filme. o que me incomoda é: será que todos os jovens que assistiram/assitirão ao filme ou leram/lerão o livro conseguirão fazer essa abstração? será que não se deixarão ser levados pela emoção e, envolvidos pela voracidade, não tomarão como palatável a ideia de agredir um par para atingir os seus objetivos?

me incomoda que a juventude de amanhã esteja sendo bombardeada com uma literatura e uma filmografia desse tipo. me incomoda saber que o bullying pode estar ganhando respaldo. me incomoda pensar que tantos jovens estão deixando de ver a morte como uma coisa singela, que deve ser tratada com respeito, interpretando-a como uma consequência inevitável a se enfrentar quando se quer conquistar algo.

o primeiro resultado de uma pesquisa rápida no Google da palavra “voraz” indica: o adjetivo significa “que devora, ou come com avidez”. e, ainda: “o lobo é um animal voraz”. Thomas Hobbes já disse que, no Estado de Natureza, o homem é o lobo do homem – uma máxima repetida muitas vezes, e muitas vezes por quem nem sabe direito da onde ela surgiu. nos tais Jogos Vorazes, isso é exatamente o que acontece: os adversários se devoram com avidez. banaliza-se a violência, banaliza-se a morte.

admito que tenho dificuldade de entender um mundo onde a juventude (e, quem sabe, a infância) deixa perder-se num estado de natureza.

ah, é: Jogos Vorazes NUNCA será “o novo Harry Potter” ou “um fenômeno comparável a Harry Potter”. na verdade, nada jamais conseguirá ser comparável a Harry Potter. conformem-se com esta verdade irrefutável, e parem com esta merda.