a saudade e o desabafo

a primeira memória que eu tenho do tio tarciso foi quando, ainda muito pequena (uns 3 anos), fui a miracema e, na casa dele e da tia sílvia, brinquei com as galinhas no quintal. brinquei, não. fiquei por lá, com ele, pra mivó tirar fotos. a verdade é que eu estava morrendo de medo e queria sair logo dali. mas, eu estava com meu tio, e não devia ter tanto medo assim.

ao longo dos meus 19 anos de vida, ele sempre esteve muito presente. nas suas muitas vindas a niterói, nas minhas não tão constantes idas a miracema… nas suas frequentes vindas à minha casa. me lembro muito bem das várias vezes em que, almoçando aqui, dizia ‘você não está comendo feijão! você precisa comer feijão!’, fazendo coro às recomendações da mamãe. lembro também de outras situações, como quando ele trazia ovos de galinha caipira pra mim, ou os presentes de aniversário que ele me dava e dizia que eram ‘a minha cara’, ou ainda das muitas ‘competições de pastel’ que fazíamos.

lembro dele no casamento da nanda, sua filha, em junho do ano passado. como ele estava orgulhoso e feliz! e mais: satisfeito e agradecido a Deus porque ele o deixara presenciar aquele dia tão importante. lembro-me também que, cansados, resolvemos deixar a festa, e ele, que já esperava um táxi, disse para virmos juntos, senão ainda iríamos esperar muito.

ao longo dos últimos 14 anos – ou seja, quase a minha vida inteira – ele lutou contra o câncer. mas, em nenhum momento, por mais debilitado que estivesse, eu o vi esmorescer na fé. aliás, vê-lo me dava mais vontade de acreditar em Deus, e ter fé; fé não só na religião, mas também fé no mundo, fé nas pessoas. ele era, de fato, um homem de fé.

até quando estava mais doente, mais debilitado, mais vulnerável, ele não só continuava acreditando, como também nos fazia acreditar que nada o tiraria de nós. quantas vezes nos preocupamos com ele internado, com casos graves, principalmente nos últimos 2 anos… e lá voltava ele, firme e forte – pelo menos espiritualmente – pros braços da família.

estou com saudade. saudade da risada dele, das piadas dele, da alegria dele; da força de vontade, da convicção na vida, da fé; saudade de abraçá-lo e saber que, por mais que estivesse doente, ele ainda estava aqui.

é muito difícil assimilar a morte dele. talvez ainda mais difícil porque eu não pude dizer ‘até logo’ pra ele. estava longe, em outro país, em outra realidade… numa realidade que sempre tirava problemas e preocupações da minha cabeça, mas que, dessa vez, não foi o suficiente. no dia em que soube, fui a islands of adventure e tive a incredible hulk coaster e as injeções de ânimo do the wizarding world of harry potter pra extravasar e esquecer um pouco da dor que sentia. por vezes, eu agradeci não estar aqui pra vivenciar a perda por inteiro, mas por outras vezes me pergunto se não teria sido melhor estar aqui. talvez algum dia eu descubra a resposta pra esse conflito.

ele faz falta, e o padrinho márcio também. em janeiro de 2007, perdi meu segundo pai. em janeiro de 2009, com a triste coincidência da data, perdi o meu tio. ficaram ainda 6 irmãos: os 4 tios, a mivó e a mamãe. mas o time está desfalcado. e esses 2 que foram embora estão fazendo muita falta.

quando lembro do padrinho, dá uma dor muito forte no coração também. é impossível evitar as lágrimas quando lembro das nossas conversas, do meu aniversário de 3 anos quando ele me pegou no colo e saiu correndo pelo salão me fazendo rir muito, dos natais em que passamos juntos, do orgulho que ele tinha de mim, de quando ele dizia ‘olha o sal, letícia! tá comendo muito sal, vai furar seu rim!’. até hoje, quando a campainha toca, meu coração dá um pulo com a esperança de ser ele, com aquele sorriso inconfundível no rosto, pronto pra sentar na mesa e almoçar comigo. sinto saudade dessas e de todas as outras pequenas coisas vivenciadas ao longo de 17 anos.

tenho certeza de que eles estão bem, na festa que nunca se acaba, na vida eterna; sei que eles estão divertindo a todos nessa grande festa, com as vozes lindas que entoa(va)m canções maravilhosas — inclusive músicas dos Beatles, ídolos deles — e contando piadas que faziam o diafragma doer.

mas isso nunca vai me impedir de sentir muita, muita, muita saudade de dois exemplos de dignidade, esperança e alegria; dois homens bons.

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